Mohammed e o mundo com os olhos de encantamento

“A noite pode ser bem traiçoeira”, comentava um dia com um amigo. Insone já há uns bons anos, conheço bem o quão perigosa pode ser uma noite em claro e a sós. É quando o tal do ‘ciclo circadiano’ fica desregulado. Aquele que, quando fora do seu ritmo original, nos traz uma série de desequilíbrios, mudanças de humor, tristeza profunda.

É `a noite que seus maiores efeitos se mostram. Todos aqueles pesadelos que de dia se ocultam tendem a vir à tona. Momentos de profunda e irracional tristeza. Momentos que tendem a desaparecer com o simples raiar do sol. É a diminuição da chamada ‘vitamina da felicidade’. A cabeça a mil, o corpo cansado, mas não conseguimos dormir. Giramos, voltamos, e depois pensamos: o que houve? Mas por que tanto desespero, tanta tristeza à noite? Isso (e muitas outras coisas que a principio soam confusas a princípio) é o que acontece com a inversão do ‘ciclo circadiano’.

Por alguns anos trabalhei modificando meu ritmo de vida a cada três dias. Trabalhava no escritório de uma grande empresa em Londres que lidava com ‘crowd management’ e segurança. Ficava responsável pelo escritório neste período e pelo controle de todas as operações que tínhamos. Estávamos nos principais eventos da capital britânica, tais como: Live 8, Maddonna, Kylie Minogue, Bruce Springsteen, Coldplay, Tower Bridge Music,Royal Albert Hall, Hyde Park,Crystal Palace,Isle of Wight Festival, etc.

O trabalho era bem intenso, a depender da época do ano. Não deixava, entretanto, de significar que estava só em todo o escritório. Nosso pessoal se encontrava nas ‘venues’, podendo ser contatados apenas por celular em caso de emergência e/ou controle (era minha responsabilidade zelar pela segurança de nossas zonas de controle e funcionários, assim como instruir-lhes para que agissem de acordo com a lei). O fato de morar só acabava por complicar ainda mais a situação: tente ligar para alguém às 2 da manha de quarta-feira, com insônia para ver se encontra…

Hoje não consigo mais dormir antes da meia-noite. Culpa de coisas que aconteceram neste longo período. Dormir de tarde e despertar já sendo noite tem um efeito devastador em mim. Acordar de madrugada então… Coisas que as pessoas não conseguem entender, resquícios que ficaram. Coisas que não se controlam, ficam registrados e são difíceis de serem contornadas.

Foi em muitas dessas noites em claro que descobri a qualidade da TV durante a madrugada. Quantas vezes saí de meu quarto e fui à sala (em um frio tremendo, muitas vezes negativo) para vê-la, achando que ia ser algo chato e conseguiria pegar no sono.

Que surpresa notar a quantidade de programas interessantes que se pode ver depois das 2 ou 3 da manha. Foi durante uma dessas frias e solitárias noites de inverno que consegui ver um lindo filme iraniano: Rang-e Khoda (The Colour of Pradise – 1999).

Trata-se da historia de um garoto cego, Mohammed, que perdeu a mãe ainda jovem e teve que ser enviado para uma escola especial. Lá poderia aprender a ler e a escrever em braile (longe do campo onde vive a família, que trabalha com colheita).

Vivia em um conflito interno, com o fato de ser cego e não aceitar a cegueira como um fato normal de sua vida. Diz que certa vez reclamou com uma de suas professoras que, devido à sua cegueira, ninguém gostava dele, ninguém o amava, era distinto dos demais da sociedade. “Nem Deus posso ver”, diz o garoto. A professora o responde que Ele é invisível, não pode ser visto, mas sentido. Que como ele é cego é especial, e Deus lhe permite senti-Lo e vê-Lo mais facilmente a partir do seu tato desenvolvido.

A partir de então, Mohammed passa a tatear o mundo, “lê” tudo o que existe, tentando sentir a presença divina no seu mais mínimo detalhe – as árvores, a água, a areia, o mar, os animais: as coisas e os seres. Aprende que o mais simples som, relevo, temperatura, sensação pode ser intensificado e vivido, sentido na sua maior plenitude. Basta ele querer.

Mohammed “vê” o mundo através de seus olhos cegos, imagina na sua mente aquilo que não é, e cria o seu ser através do que sente com seus “olhos” especiais. Ensina-nos, entretanto, que o mundo é uma experiência de sensações que por vezes deixamos passar, não imaginar, não viver, não sentir…

Não sentir o vento, o ar, a chuva, o calor, o sol, afastar-se inconscientemente dos demais… Não sentir a presença divina que se encontra na natureza e dentro de todos nós. Apaixonar-se, abrir, sorrir com um pássaro que canta, com um sorriso… Sentir um sorriso apenas com a voz, sem ver o outro. Ver o sorriso com os olhos do coração, tal qual o pequeno Mohammed, e querer sorrir junto.

Há uma fábula antiga que conta a história de dois enfermos que, chegando a um hospital, são postos no mesmo quarto, porém em posições distintas. Um tem uma vista para a janela, o outro não pode ver o que há do lado de fora.

Aquele que pode ver através da janela, entretanto, desenha, pinta na imaginação do outro, a cada dia, as mais belas imagens e situações que ele pode ver. A beleza do exterior do hospital, a natureza, o céu, as nuvens, as cores e aqueles que passam…

Certa noite, num agravamento da sua situação, este clama desesperadamente por ajuda. Sem que os médicos ou enfermeiras escutem, pede para o amigo ajudá-lo a chamar quem seja em seu socorro.

A inveja e cobiça, fazem com que o outro se cale, pensando já na possibilidade de mudar de leito e das maravilhas que terá à sua disposição. Pela manha, seu amigo já está morto. Pede então que lhe seja mudada a posição da cama para que possa ver o mundo exterior. Ao ser feito, percebe que pela janela não se vê nada alem de um muro de concreto, sem imagem alguma! Vivia a ilusão criada por seu falecido amigo. Uma ilusão muito mais bonita que a própria realidade que se apresentava.

O mundo é aquilo que vemos, aquilo que imaginamos e a realidade que criamos. É a vida confirmada na suas mais perfeitas cores, sensações ou sabores. São os cinco sentidos agindo juntos e separadamente. Mais precisamente a mente funcionando para fazer possível sentir aquilo que a religião, ou a mesma filosofia, tanto busca dentro de cada um de nos: encantarmo-nos!

Quantas vezes ganhamos de presente alguém que tenta (e de fato chega a conseguir por algum período) mostrar-nos um mundo mais bonito, mais colorido e mais belo, mas não nos abrimos para permitir que possamos, juntos, criar a nossa tela? O encantamento de um pode ser a tela do outro e, juntos, temos as ferramentas necessárias para criar uma aquarela a quatro mãos.

Harmonizar-nos como em um, permitindo-nos construir uma realidade que é maior que a de cada um isoladamente, porque vemos não necessariamente aquilo que se vislumbra diante de nossos olhos. Vemos, essencialmente, aquilo que queremos ou nos treinamos para ver. Mohammed viu a beleza, a pureza. Porque deveríamos ver o sujo, se temos a opção de tentar nos fascinar com o belo, fazendo da vida mais bonita? Porque bloquear aquele que tenta nos mostrar o belo, se em dois podemos imaginar, e criar, algo ainda mais lindo?

Author: Leo Teles

Advisor to the President of CDL Salvador (Chamber of Retail Leaders of Salvador, Bahia, Brazil)

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